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Maternação na quarentenena – Brasília, 2020

PERFIL

Angélica Nunes

"A arte tem esse potencial transformador de conseguir dar forma aos nossos sentimentos para que possamos reconhecê-los e, quem sabe, ressignificá-los se preciso."

Pouco tempo após produzir a sua obra audiovisual "Maternação na quarentena", entrevistamos Angélica sobre o seu processo de criação e também da sua vivência criativa. Descubra abaixo todos os detalhes.

O que faz você ser você em poucas palavras?

A certeza de estar sempre me tornando, a abertura por não ter respostas prontas e sempre questionar, o respirar dos processos diários com poesia, choro e arte.

Qual significado esse projeto tem pra você?

Honestamente, nem consigo colocar em palavras. Tem um impacto pessoal na minha vida enquanto mãe, no meu trabalho enquanto artista e como sendo um registro para a minha filha futuramente também. Mas é um tema que atinge muitas mulheres que estão na mesma luta e às vezes nunca tiveram a oportunidade de falar sobre isso e é importante que elas possam reconhecer suas vivências. A arte tem esse potencial transformador de conseguir dar forma aos nossos sentimentos para que possamos reconhecê-los e, quem sabe, ressignificá-los se preciso. Mas para isso, é preciso ver. Acho que é um recado singelo, em 7 min, dizendo para uma outra mãe que ela não está sozinha, que eu também sinto tudo isso.

Como você se sente em relação ao resultado?

Estou feliz com o que consegui produzir dentro do prazo estabelecido. Gostaria de ter feito um vídeo maior, numa outra proposta também, mas levaria mais tempo.


"Minha inspiração tem sido seguir caminhos que me ajudem a descolonizar"

Como foi o processo de criar durante uma quarentena?

kkkk, a vida de mãe solo é praticamente uma quarentena. De fato, não tem muita diferença na questão do isolamento social porque já passava muito tempo em casa. O desafio veio de conciliar o trabalho com os cuidados de uma criança, dentro de um espaço pequeno que é um apartamento. Aumenta o estresse, a ansiedade e sensação de claustrofobia. Mas, principalmente a sensação de cansaço e esgotamento. As atividades se emendam, é sempre uma distração, uma interrupção, com a responsabilidade de se manter sã para continuar trabalhando, para dar suporte ao filho que está tão afetado quanto a mãe. Usar essa rotina como tema do projeto foi o que tornou possível criar algo nesse período. Talvez se eu precisasse fazer algo para muito além da minha vivência não conseguisse concretizar, assim como tantas coisas engavetadas ou pela metade que acumulo por falta de tempo.


Como é criar pra ti?

Normalmente começo pela escrita. Tenho um caderno de anotações onde registro insights, pensamentos e reflexões a partir da minha vivência. Algumas nunca saem dali, outras ganham corpo e se desdobram em imagens ou outras criações. Tem ideia que já vem pronta e é só colocar para fora, outras precisam de um tempo para amadurecer. Tenho o hábito de ler e consumir muita coisa diferente e isso me ajuda a ter um repertório de possibilidades do que fazer com uma ideia, mas gosto de testar bastante também. Acredito que muito da criação vem do experimento e tento não me prender a uma linguagem específica. No momento, o meu foco é criar, colocar essa energia para fora, entendendo que, muitas vezes, o processo de criação é mais importante que a coisa em si.

Qual a sua primeira lembrança de ter criado algo?

Na infância, perto dos quatro anos. Lembro de observar muito os detalhes da vida cotidiana, o que as pessoas diziam e de criar histórias. E, de alguma forma, isso influenciou a minha linguagem. Tenho um apreço pela palavra escrita ou falada, a poética do comum, o passado e as minhas memórias. As histórias que me contavam e as que eu tento encontrar.

"tenho olhado mais para a questão da maternidade, tentando explorar os pontos conflituosos disso, que ainda são pouco falados"


Em que momento você começou a criar e realizar projetos pessoais?

Passei muito tempo sem olhar para a minha arte, de fato, nunca me considerei artista, apesar de ter pessoas que me enxergassem totalmente nesse mundo da criação. Eu simplesmente não conseguia ver a arte como possibilidade de vida, mas criar sempre fez parte de quem eu sou e estava sempre escrevendo, desenhando ou fotografando, mesmo que despretensiosamente. Na faculdade de jornalismo, meu professor de fotografia, Lourenço Cardoso, elogiou um trabalho meu e disse que eu deveria investir, nem que fosse como um projeto pessoal. Aquilo ficou ecoando dentro de mim até que no ano passado eu me inscrevi num edital para a Expomatriz, no Museu Nacional da República, incentivada por um amigo, e expus a minha primeira instalação. Desde então tenho me dedicado a experimentar mais e fazer pesquisas.


Pra esse edital, como surgiu a ideia da proposta

Desde o ano passado que tenho olhado mais para a questão da maternidade, tentando explorar os pontos conflituosos disso, que ainda são pouco falados, mas que já há artistas trabalhando também de diversas formas. Como mãe solo que passou muito perrengue, eu sempre tive uma visão distante do romantismo que as pessoas pregam a respeito da ideia de "ser mãe". Participo do @coletivomatriz, que une mães-artistas aqui do DF, e estamos sempre discutindo o tema. Antes do edital, começamos a divulgar pequenos processos no Instagram (#relatosdequarentenamaterna), e senti vontade de explorar mais essa questão da sobrecarga na linguagem de vídeo. Quando recebi o edital, encontrei uma possibilidade de dar forma ao que eu estava pensando e trazer mais visibilidade para essa questão.

Como você imagina teu projeto sendo visto no futuro?

Não sei, kkkk, não gosto de pensar nisso para não me assustar, ficar ansiosa ou criar expectativas e a vida sempre dá um jeito de surpreender a gente, no melhor ou no pior dos sentidos. Então, deixa ver. Pode ser que eu seja criticada tecnicamente, mas gosto de saber que terei esse registro para a minha filha futuramente.


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Acompanhe mais projetos da Angélica em seu instagram @euangelicanunes

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