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17 Dias de 40tena – Brasília, 2020

PERFIL

Devana Babu

"Criar é um misto de dor e prazer, em que a dor faz parte do próprio prazer, a dor é, ainda, uma circunstância que deve ser curada e motiva às vezes esse ímpeto criativo, na medida em que ele é, justamente, uma busca pelo êxtase e pelo prazer."

Pouco tempo após produzir o zine "17 Dias de 40tena", entrevistamos Devana Babu sobre o seu processo e a sua vivência criativa. Descubra abaixo todos os detalhes.

Como surgiu a ideia do zine?

Veio do livro 1001 discos para ouvir antes de morrer. Eu sempre fui um ávido pesquisador musical, ao ponto de as vezes ser sistemático na pesquisa, ouvir o que nem gosto e com atenção em nome de uma certa sabedoria, que te equipa, é verdade, para criar e usufruir coisas que você gosta, e tem mais, muitas pérolas estão escondidas com os porcos, e quem se atreve a fuçar na lama encontra tesouros inimagináveis, que jamais serão encontrados por quem só quer seguir as velhas trilhas do garimpo do ouro.

É preciso sujar as mãos, é necessário ir ao fundo do poço para encontrar a redenção, o que tem a ver que o lance de dor e prazer que escrevi mais cedo. É isto que me torna serendipitoso. Tergiversei legal... Então eu encontrei este livro numa parada de ônibus da Asa Norte, na altura ali da oito. Estava indo ensaiar com minha banda no estúdio, desci nesta parada e mal acreditei no que meus olhos viam, naquelas prateleiras de livros doados onde geralmente se encontra livros direito obsoletos, que especie de alma caridosa ou atormentada teria deixado tal.... pérola aos porcos? Fui para o estúdio com  o pesadíssimo volume debaixo do braço, como se a guitarra já não pesasse bastante com sua alça vagabunda, e desde então tenho me dedicado a ler e ouvir religiosamente todos os álbuns na ordem. Essa experiencia em sim a disponibilidade dessas informações precisas, e o valioso intermédio, a curadoria de uma galera que passou a vida escrevendo sobre musica e te guia direto ao supra-sumo, ou ao mais universal... isso me encante e, como eu tenho esse lance de ser jornalista... pensei em fazer um lance parecido só que falando não de discos a maioria americanos e da grande industria... mas sobre as obras obscuras, underground, etc, porque o meu lance mesmo é ser, viver e escrever sobre underground. Surgiu então esse edital, e eu precisava muito de grana, e é um prazer inenarrável receber pelo menos uma vez na vida algo pela sua criação ainda mas se for de um zine.

Eu tive essa ideia de fazer um guia que enumerasse não álbuns por ano, mas singles por dia, tudo produzido ou lançado na quarentena... achei que seria interessante adaptar este formato para esta realidade e  que todos sairiam ganhando com isso, e assim foi, de fato.

Como foi esse processo de criar durante uma quarentena?

Foi pesado.

Apesar do que parece, que não ter que pegar ônibus, trabalhar em casa seria mais suave, as aulas interrompidas... qual nada. As louças ficam ali na pia te criticando enquanto você precisa fazer dois, três trampos diferente pra sustentar a água, a luz a internet e a cerveja, a solidão bate forte porque sua companhia te abandonou como todo mundo de resto, e só o que você vê na sua frente é trabalho duro e uma cadeira igualmente dura, e olha que seu trabalho na maior parte das vezes é escrever sobre arte e etc. Seu cérebro se nutre sim mas é um trabalho como outro qualquer, bota fé? é labor, é labuta, e tem essa cadeira dura sob minha bunda e a sujeira se acumulando pelos cantos enquanto o sono se torna cada vez mais escasso. Tem os pequenos surtos de ansiedade, coisas do corpo da mente e do espírito. Mas que bom que temos uma guerra pra lutar, um desafio a superar, um produto a entregar, uma coisa pra criar, até mesmo uma distração.

Que bom é também compartilhar essas porras ao final da porra do processo, alguém ler, alguém vivenciar esse processo telepático de absorver uma coisa que estava na sua mente na mente dela. É massa. É gostoso mas dói.

Além desse momento, como é criar pra ti? Seu processo e sentimentos...

Criar é um misto de dor e prazer, em que a dor faz parte do próprio prazer, a dor é, ainda, uma circunstância que deve ser curada e motiva às vezes esse ímpeto criativo, na medida em que ele é, justamente, uma busca pelo êxtase e pelo prazer. A dor funciona como um interruptor que faz jorrar a luz do prazer de criar, de ser deus por algumas horas, de ser deus no universo de alguém que vê a sua criação ou no seu universo quando, as vezes, você se lembra de quem você nunca foi e nem deveria ter sido e tentou ser, por algumas horas, que seja. "em poucas palavras": dói, mas é gostoso.


"é labor, é labuta, e tem essa cadeira dura sob minha bunda e a sujeira se acumulando pelos cantos enquanto o sono se torna cada vez mais escasso."

Qual a sua primeira lembrança de ter criado algo?

Eu era criança, bem criança, estava no meu quarto que ficava no fundo dos outros dois quartos, o mais próximo de um universo particular que eu tinha em uma família pobre de são sebas em que em dado momento todos dividiam o mesmo quarto, neste momento era só eu e meu irmão. Havia uma porta de madeira forrada com carpete, verde com gotas de tinta escorridas viradas de cabeça pra baixo, meu pais fez a porta e pintou a la Jackson Polock, eu estava nesta minha cama, chovia, havia esgoto em alguns cômodos da casa e eu tinha uma revista em quadrinhos de fantasia nórdica, estilo Conan, só que ela se chamava "Krull", e este foi o nome que eu dei ao poema que eu escrevi naquela noite. Provavelmente não é minha lembrança criativa mais antiga mas é a mais antiga que eu lembro agora. Lembro também que havia essa casa no fundo da casa da minha avó, meu tio tinha morado lá com a família recém formada e depois se tornou ruínas, e eu com carvão desenhei um trio de Jazz na parede.

Eu não ouvia Jazz.

Em que momento você começou a realizar projetos pessoais?

Acho que desde sempre. Eu sou meu próprio projeto criativo pessoal, no fundo.

O que faz você ser você em poucas palavras?

Sinto que nossos traumas e memórias que nos constroem, pode parecer meio trágico ou fatídico mas a gente é a soma de todas as nossas dores e de como conseguimos transmutar isso em amor e resiliência, tá nesse mundinho, ao menos pra mim, tem muito a ver sobre isso, sobre catarse e aprendizado, sempre buscando um equilíbrio dinâmico.


"acho que a criação está sempre aquém dos nossos sonhos, isso é o que faz um artista ser cada vez melhor, então foda-se"

Como você se sente em relação ao que vocês criaram?

Me sinto decepcionado porque quando escrevi o projeto, já diminui bastante as expectativas por ter noção da exiguidade do prazo e das dificuldades inerentes ao período que estamos vivendo.

À media em que fui trabalhando surgiram imprevistos e o escopo foi só diminuindo, coisas ficaram para trás para que o produto fosse entregue, então ficou essa sensação. Preste a entregar o bendito zine já estava a mais de 24h sem dormir, não por causa do projeto em si mas porque tive que dar conta dele entre outras batalhas encampadas. Mas ao mesmo tempo, olhando o que fiz, fico muito feliz porque sei que muito dos meus talentos e capacidades estão latentes ali porque acontece naturalmente, sei que ficou algo lindo e que se eu visse eu ia ficar chapado e dizer: Uau.

No fundo é isso, acho que a criação está sempre aquém dos nossos sonhos, isso é o que faz um artista ser cada vez melhor, então foda-se, é preciso aprender a lidar com isso, com essa discrepância entre o produto sonhado e o produto real. Espero que alguém goste se não meu discurso irá por água a baixo: sonhou alto mas fez merda haha.

Qual significado esse projeto tem?

Foi uma oportunidade cada vez mais rara de fazer algo que eu gosto do jeito que eu gosto, não só do jeito que se adapta a uma industria. Uma oportunidade também de experimentar certas ideias que tenho, foi muito rico e ajudou a entender e formatar vários processos que terão frutos futuros ainda mais do que esse. Não se trata de uma coisa isolada, como estamos nós agora.

Como você imagina teu projeto sendo visto no futuro?

Acho que mesmo reduzido em relação ao escopo original, ele preserva algo do objetivo principal com um brinde, oriundo da dor do processo: quem ler aquilo dali uns tantos anos terá um panorama interessante da produção da quarentena, um guia com música boa pra ouvir apresentado por textos divertidos de ler e com muita informação de qualidade, e ainda um registro das subjetividades do autor e do período vivenciado ali, o que também tem muito a informar sobre a época que estamos vivendo.

Talvez até mesmo os formatos em jogo: pdf, links, sites de streaming... como será que as pessoas estarão ouvindo música daqui a dez ou vinte anos? Que tipo de tecnologias estarão sendo distribuídas pela empresa Spotify, por exemplo? Dá o que pensar.


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Acompanhe os conteúdos jornalísticos de Devana Babu em: https://www.correiobraziliense.com.br/busca/devana

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