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Preto sobre preto – Brasília, 2020
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PERFIL

Diego Justino

"Viver a desigualdade na pele me faz ter essa exaltação pra produzir e me comunicar com meus iguais."

Pouco tempo após produzir os cartazes "Preto sobre preto", entrevistamos Diego Justino sobre o seu processo de criação e também da sua vivência criativa. Descubra abaixo como foi tudo isso:

Como surgiu a ideia da proposta?

Eu já estava produzindo um material digital para as minhas redes sociais sobre o tema, mas aí surgiu a oportunidade de me aprofundar naquilo ali a partir do edital Quarenteners da Da Silva. E nasceu muito rápido a ideia de produzir os cartazes como forma de diálogo com a população periférica. Acho que o governo brasileiro tem gerado uma indignação que nos faz querer externar muita coisa, o meu jeito de fazer isso foi a de querer conversar com quem mais sofre com essa crise política e economia + pandemia, a população pobre.

E como foi o processo de criar os cartazes durante uma quarentena e esse turbilhão de acontecimentos?

Nesse período de quarentena eu tenho me sentido muito inspirado a produzir, deve ser o distanciamento de muita coisa que me deixava imerso em trabalho, responsabilidades e tals. claro que alguns dias eu me sentia como a maioria das pessoas nesse período, só querendo dormir e acordar após tudo isso passar. Mas alguns dias eu simplesmente acordava e queria mudar o mundo, acho que foi essa motivação que me ajudou na produção.

Em que momento você começou a criar e realizar projetos pessoais?

Desde adolescente eu já produzia meus próprios graffitis, mas não tinha a mesma visão ética e política que tenho hoje. Na universidade foi onde eu comecei a ter minhas produções próprias, algo que tinha mais a minha cara, a minha linguagem, o que eu vivia de fato. Acho que o choque cultural na UnB foi muito grande pra mim, convivi muito tempo com algo entalado no peito e sabia que de alguma forma tinha que externar o que eu tinha ali. Daí eu passei a assumir essa militância que já era de mim, mas tava internalizada e as minhas produções passaram a ter sempre um quê dessa reflexão sobre as desigualdades e igualdade de direitos.


"Enquanto eu puder denunciar tudo isso com as minhas produções, eu continuarei fazendo."

Como é criar pra ti?

O meu processo criativo desde sempre envolveu a música, sinto uma ligação muito forte com o que eu escuto e o que eu produzo. O rap (o que eu escuto diariamente) me faz ter a motivação necessária para minha produção, a minha militância. Carrego sempre uma frase do Sérgio Vaz que diz “Muito amor, muito amor. Mas raiva é fundamental”. Acho que sintetiza muito bem o que eu faço, muito amor pelo design, pela arte gráfica, pelo hip hop, pela música, mas a indignação com toda desigualdade, racismo, LGBTfobia, machismo... é o que me faz estar em movimento. Enquanto eu puder denunciar tudo isso com as minhas produções, eu continuarei fazendo.

O que tem te inspirado nesses últimos dias e que você gostaria de compartilhar?

Eu me inspiro muito na música como eu já disse e principalmente em artistas negros do cenário nacional: Racionais, Emicida, Djonga, Baco, BK, Tássia Reis, Drik Barbosa, Rico Dalasam,..Mas existem outros que admiro não somente pela música, mas pela vida de militância como: GOG, Markão Aborígine... são muitos mesmo, a maioria vem da música. Mas no campo do design eu sempre fui apaixonado por tudo o que o Emory Douglas produziu, talvez seja o designer mais próximo do que eu gostaria de ser um dia.

The Art of Emory Douglas | Panteras negras, Tatuagem de dólar ...
Pôster do designer Emory Douglas

Qual a sua primeira lembrança de ter criado algo?

Há muito tempo, bem antes até do curso superior em Design. Minha mãe recorda que eu desenhava bastante quando criança e isso permaneceu na minha vida,  daí eu conheci o graffiti por meio do hip hop e virou a minha vida. Posso algum tempo, lembro que fiz um curso de Photoshop 7.0 em uma igreja perto da minha casa, a partir daquilo ali eu conheci o design gráfico e comecei a produzir “montagens” de fotos minhas e de amigos, virei o “menino que manjava de Photoshop”.

"quero botar nas ruas, nos pontos de ônibus, quero gerar questionamento nas pessoas"


Qual significado esse projeto tem pra você?

Bom, acho que talvez seja um dos primeiros projetos que tive exata certeza do que deveria ser feito e de como fazer. Viver a desigualdade na pele me faz ter essa exaltação pra produzir e me comunicar com meus iguais. Tem um significado muito grande pra mim esses cartazes porque foi uma produção que eu amei fazer, tem muito de mim neles, mas de nada valerá se não gerar a reflexão necessária em quem eu espero.

Como você se sente em relação ao resultado final?

Até agora o resultado foi o melhor possível, quem viu processo elogiou bastante. Mas eu quero botar nas ruas, nos pontos de ônibus, quero gerar questionamento nas pessoas. Quando eu perceber que realmente isso aconteceu, aí sim eu digo que o resultado foi excelente, que cumpriu o que se propôs.

Como você imagina teu projeto sendo visto no futuro?

Ah, eu imagino as pessoas comentando sobre ou tirando fotos e postando em suas redes sociais. O mais importante é o alcance, por isso tem que estar na rua. A rua é onde há o encontro das pessoas, é onde há a reflexão de querer ter algo melhor pra si, um lugar mais igual.

“É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos.Acenda fogueiras.”

Termino com mais esse poema do Sérgio Vaz. O primeiro passo para a mudança é o inconformismo e isso é o que tem me inspirado.


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Acompanhe mais projetos do Diego Justino em seu instagram @dnegojustino

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