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Câmera Obscura: Interiores Urbanos & Selvagens – Brasília, 2020

PERFIL

Lucifer

"Crio como quem põe algo pra fora, as vezes o processo é de indigestão, dói a cabeça e a barriga por dias até que uma bela noite de euforia simplesmente sai por inteiro"

Pouco tempo após produzir "Câmara Obscura", entrevistamos Lucifer sobre o seu processo e a sua vivência criativa. Descubra abaixo todos os detalhes.

Como surgiu a ideia da Câmara Obscura?

Então, a ideia foi um processo de gestação bem rápido e basicamente coletivo e inconsciente! O projeto Câmera Obscura: Interiores Urbanos & Selvagens, nasce de uma união de três nascentes diferentes, a minha e a das minhas queridas amigas Amanda Campos & Alix Breda (@amndcmps & @springspells).

Amanda é minha amiga de infância mais antiga, nos conhecemos há mais de 20 anos, e desde nossa adolescência lembro que ela já experimentava com câmeras analógicas, desenhos, escritas e etc -- sempre admirei muito como vejo tanto de sua essência em suas fotografias de paisagens! Daí estávamos conversando um dia durante a pandemia sobre nossos processos artísticos e como as vezes tem sido difícil produzir, parece que cada vez que as tecnologias se desenvolvem e que ficamos mais conectados com o mundo nos desconectamos um pouco de nós mesmos... o frênesi das redes digitais, as etiquetas sociais por detrás, e o desafio de produzir no meio disso tudo algo que realmente nos toca. Nisso, a Amanda me mostrou o trabalho da Alix,  e instantaneamente me apaixonei, senti algo que nunca havia sentido antes rolando um feed de instagram, imediatamente caí em prantos e tive essa visão de como eu queria poder habitar em suas fotos no meio de todo esse caos -- algo que sempre sentia ao ver os trabalhos da Amanda, mas até então não conhecia a Alix.

Percebi como havia um diálogo entre os trabalhos de ambas, como eles pareciam ter saído da mesma dimensão, expliquei brevemente a imagem que tive (rapidamente elas captaram, em sincronia, como se estivesse na cabeça de todxs), daí nos pusemos a criar esse mundinho também na matéria... foi o abraço mais quentinho que tive durante toda a quarentena.

Como foi esse processo de criar durante uma quarentena?

Na verdade foi bem gostoso criar esse projeto, me deu um gás pra sustentar essa situação toda. Foi tão imersivo, e me senti tão próxima das minhas amigas e amigos! Além das meninas, contei com a colaboração de dois amigos y artistas muito queridos, o Felipe Schelb (@schlb), que fez a captação das imagens, e o Hyago Leão (@hya.oo), que me auxiliou na montagem e produção da instalação. Fomos muito cuidadosos com a logística, sempre com máscaras e álcool em gel, e gravamos tudo em um dia, por aproximadamente 8 horas corridas. Algumas ideias foram surgindo na hora de forma espontânea, após a gravação eu curei e editei o material em casa, desde então não saí mais de casa. Já a edição, fiz sozinha porém sempre trocando ideia com a Alix e a Amanda, assim fomos vendo o projeto ganhar vida e me senti bastante conectado com elxs durante o processo!

Além desse momento, como é criar pra ti? Seu processo e sentimentos...

Crio como quem põe algo pra fora, as vezes o processo é de indigestão, dói a cabeça e a barriga por dias até que uma bela noite de euforia simplesmente sai por inteiro, as vezes, se dá como algo mais sólido que permeia minha mente por dias pra ir lentamente sendo construído no mundo material. Li uma vez que inspiração ou ideias são tipo uns duendes que vivem no astral e o trabalho de artistas é capturá-los e transmutá-los pro meio físico, gosto de pensar assim, como se as nossas ideias e criações tivessem vida própria também!


"tudo que produzo tem um pouco ou bastante de mim ali, é íntimo e visceral"

Qual a sua primeira lembrança de ter criado algo?

Acho que quando tinha uns seis anos mais ou menos, minhas primeiras memórias começam por volta dessa idade! Sempre fui muito apegado as minhas memorabílias, isso começou por volta dessa idade quando percebi que não lembrava de quando tinha dois anos, hahah. A partir daí comecei com alguns hábitos como o de recontar meus momentos preferidos do dia antes de dormir, ou de colecionar pequenos "souvenirs" de alguns acontecimentos ou de pessoas importantes pra mim, coisas aparentemente banais, como: cascas de árvores, rótulos de produtos, cartinhas dos colegas da escola, pedaços de algum brinquedo que gostava e se quebrou, o batom seco que a avó iria jogar fora e etc. Acho que esses hábitos são importantes não só pra construção da minha pesquisa como artista mas também como parte da minha essência em si, tudo que produzo tem um pouco ou bastante de mim ali, é íntimo e visceral, e é assim que acredito que são também as coisas que me tocam.

Acredito que ninguém precisa se denominar artista pra fazer/ser arte, todo mundo tem um artista dentro de si (afinal, todas crianças são artistas, foi o que aprendi ao trabalhar como arte-educadora com crianças em alfabetização) as vezes só lhe nos damos a oportunidade de se expressar, ou a castramos há tempos atrás sem nem saber o porquê...

Em que momento você começou a realizar projetos pessoais?

Bem, comecei o que chamo de ˜jornada do bobo˜, somente em 2016! É engraçado porquê sempre fui muito criativo e particularmente boa em criar universos próprios (principalmente na minha imaginação hahah), mas sempre tive muita insegurança e vergonha em mostrar o aos outros, foi um looongo e demorado processo até isso acontecer -- que inclusive muito que motivado pela terapia. A questão é que sempre fui introspectivo e também, acho que por possuir uma deficiência auditiva (tenho anacusia/surdez no ouvido esquerdo desde os 11 meses), a minha socialização foi um pouquinho diferente das outras. Vivia bastante no meu próprio mundinho, tinha dificuldade em me comunicar com outras criança, e acabava internalizando muitos processos, gostava bastante de criar personagens, no papel e na imaginação! Então nunca consegui ficar longe da criação porque sempre foi uma espécie de refúgio e expurgo, na adolescência, no entanto, comecei a pensar que "não era pra mim", que não tinha "talento" suficiente, aquela coisa de se comparar demais com a jornada de outrxs até esquecer da sua própria... Fiquei nessa por alguns anos, produzindo as espreitas e me desanimando cada vez mais. Somente em 2011 quando comecei a cursar Museologia que acabei me envolvendo novamente com as artes, daí comecei aos poucos trabalhando em exposições: produzindo, mediando, conservando acervos e etc. Contudo, o que me motivou mesmo foi estudar um tema que sempre me foi muito essencial: memórias (individuais e coletivas), nossa relação afetiva com elas, as políticas públicas envolvidas, como resignificá-las, e principalmente, como construímos nossa identidade através delas!

O que faz você ser você em poucas palavras?

Sinto que nossos traumas e memórias que nos constroem, pode parecer meio trágico ou fatídico mas a gente é a soma de todas as nossas dores e de como conseguimos transmutar isso em amor e resiliência, tá nesse mundinho, ao menos pra mim, tem muito a ver sobre isso, sobre catarse e aprendizado, sempre buscando um equilíbrio dinâmico.


"é importante nesse período não pensarmos só em nós, ter empatia por todo mundo que nos faz ser quem somos"

Como você se sente em relação ao que vocês criaram?

Fiquei bastante orgulhoso tanto do processo de criação, da montagem e dos ajustes finais. Apesar de todos os empecilhos que tivemos creio que fizemos um trabalho que remete um pouquinho de cada pessoa que participou do projeto! Fico bastante feliz, pois é nisso que eu acredito, em trabalhos colaborativos e fluídos, que transmitem visceralidade, sabe?!

Qual significado esse projeto tem?

O Câmera Obscura foi quase um sonho que vi nascendo na terra de forma tão fluída e pacífica, me orgulho bastante dele e me sinto muito privilegiado pela oportunidade de ter conseguido fazer isso acontecer graças a DaSilva! Foi o primeiro edital que participo e ganho, me deu uma energia e motivação fazer mais projetos e procurar outros editais e oportunidades, sabe? Sempre achei que esses editais eram muito burocráticos e nunca davam espaço pra artistas REALMENTE independentes, que tão trilhando sua jornada, as vezes sem muito reconhecimento ou condições. A primeira coisa que me surpreendi foi como o edital foi acessível, num período tão difícil pra todxs, já havia me sentido acolhida pela equipe no momento da inscrição, durante e após então minha admiração pelo trabalho e carinho por cada um delxs só aumentou! Durante o período de edição perdi meu avô e minha avó para o Covid, foi um choque de realidade que apesar de muito muito triste também necessário para um momento de catarse, foi muito bom sentir esse tanto de empatia num ambiente que muita das vezes é marcado pela competição. Acho que é importante nesse período não pensarmos só em nós, ter empatia por todo mundo que nos faz ser quem somos, cuidar e zelar, e principalmente, ficar em casa se assim puder!

Como você imagina teu projeto sendo visto no futuro?

Vishe, ah não sei... Tenho planos de inscrevê-lo em outros festivais e editais, mas nunca se sabe né? No entanto, conversando com as meninas pensamos que seria MUITO legal trazer o espaço que criamos como uma instalação mesmo, com elementos físicos e sinestésico, como cheiros, texturas e sons! Afinal, o que senti imersa naquele espaço durante as gravações foi de tamanha tranquilidade, pois apesar de estar confinada num pequeno cômodo me sentia tão em contato com a natureza e as pessoas que ali eram projetadas sob as paredes e lençóis, gostaria que outrxs pessoas também tivessem essa experiência.


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Acompanhe mais projetos dos artistas em seus instagrams:

Lucifer, video-performance, edição & cenografia - @luciferinm

Amanda Campos, fotografias projetadas e textos - @amndcmps

Alix Breda, fotografias projetadas e textos - @springspellsHyago

Leão, produção e montagem - @hya.oo

Felipe Schelb, filmagem & fotografias da performance - @schlb

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